domingo, 7 de junho de 2009

Belém cresce e sufoca corredor de florestas

O boom imobiliário em algumas áreas de Belém faz a cidade perder, a cada dia, um pedaço de sua extensão verde. Na rodovia Augusto Montenegro, um dos principais corredores viários da capital paraense, 14 condomínios verticais e horizontais estão em obras - o que deve abrigar cerca de 200 mil famílias, segundo a Organização Paraense de Mutuários (Orpam). A grande preocupação dos ambientalistas é com a degradação do ecossistema da região por conta do crescimento do desmatamento.

Para André Lobato, pesquisador da Associação Paraense de Doação de Órgãos e Preservação do Verde (Apaverde), a devastação de fragmentos florestais existentes em vários trechos da rodovia é um retrato claro do que o crescimento desordenado causa a uma metrópole. 'Uma das principais coisas que eu percebo, e que me preocupa muito, é a pena de morte decretada aos igarapés que ali existiam em abundância. Esse crescimento assoreou nascentes, prejudicou os aquíferos e as reservas de água potável que existiam ali, além das centenas de outros problemas', revela. Para Lobato, os danos causados ao ecossistema são irreversíveis.

No entanto, o geólogo e professor Francisco Matos, membro da Comissão de Meio Ambiente do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura do Pará (Crea-PA), afirma que os impactos ambientais estão em qualquer lugar de Belém - e nem assim é feito um 'zoneamento' do problema. 'Toda aquela área ainda tem muito verde, mas não há um plano diretor que possa definir qual território deve ser preservado e qual deve ser devastado. Na verdade, não há uma legislação que impeça o desmatamento. Por isso, os donos dos terrenos derrubam tudo para investir na construção civil', revela.

Francisco Matos destaca que, sem legislações, a temática ambiental vira questão de consciência. 'Se esperarmos pela consciência dos empresários, as coisas não vão funcionar, até porque o que está sendo feito com o verde da rodovia não é ilegal. Pode até ser imoral do ponto de vista social, mas é legalmente permitido', acrescenta. A sugestão apresentada pelo professor é que cada cidadão chame para si a responsabilidade. 'Todos deveriam assumir a frente deste processo, seja a Assembléia Legislativa do Pará, seja a Secretaria de Estado de Meio Ambiente, seja a Prefeitura de Belém', alega.

O secretario municipal de meio ambiente José Carlos Lima afirma que o problema deveria ser combatido desde o início da ocupação da área. 'Essa região, desde a década de 70, é uma área de expansão, e foi criada para abrigar órgãos públicos como a Seduc (Secretaria de Estado de Educação do Pará), a Emater (Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural) - porém, com o passar do tempo, não se acompanhou a ocupação urbana, que tornou-se algo desordenado', afirma. O secretário lembra que o crescimento do setor imobiliário está dentro da lei de urbanismo, e que, contudo, está se tentando diminuir o impacto sobre as áreas verdes. 'A evolução faz parte de qualquer cidade, o que precisamos fazer é diminuir o impacto', acrescenta.

VALORIZAÇÃO

Com as obras na rodovia Augusto Montenegro, os imóveis deverão ficar ainda mais valorizados. Pelo menos é o que afirma José Colares, presidente da Orpam. Segundo Colares, os imóveis localizados na via estão melhor avaliados, devido o sossego que a região ainda oferece. 'Na área, existem bons supermercados, faculdades e outros empreendimentos que facilitam a vida das pessoas. São diferenciais na hora de comprar um imóvel', destaca. O presidente da Orpam explica que a cidade precisa crescer, mas não tem para onde. 'Como o trânsito é mais calmo e as casas são grandes, confortáveis, muita gente prefere deixar o centro de Belém. Tanto as casas quanto os apartamentos valem cerca de R$ 80 mil. Esses preços podem ser menores nas inúmeras transversais ligadas à rodovia', destaca.

O pesquisador Paulo Amaral, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), confirma o sossego ainda predominante na rodovia Augusto Montenegro exposto por José Colares. 'A região ainda pode ser considerada verde. Na verdade, Belém ainda é uma cidade verde. Contudo, se não cuidarmos do verde, poderemos, em breve, deixar de tê-lo. É preciso estudar estratégias para manter, dentro destas construções, pequenos bosques', afirma. O pesquisador declara que tudo aquilo que tiver conectividade com o verde, deve, de alguma forma, ser preservado'.

Situação da malha viária preocupa

Além da questão ambiental, o trânsito é outra preocupação de quem mora na rodovia Augusto Montenegro ou transversais. Segundo Onofre Veloso, diretor de Projetos da Companhia de Transporte de Belém (CTBel), serão implantados terminais de integração ao longo da rodovia para evitar o congestionamento, além da ampliação de toda a malha viária. 'A avenida Independência ligará a rodovia Augusto Montenegro à avenida Júlio César. Outro ponto importante é a melhoria no trânsito e recuperação da pista da rodovia Arthur Bernardes, que será totalmente reordenada, em parceria com as empresas instaladas naquele local', destaca. O diretor explica que os ônibus que saem dos bairros não chegarão ao centro de Belém, pois a ligação bairro-centro será feita através do terminais.

A Secretaria Municipal de Saneamento (Sesan) constroi aproximadamente um quilômetro de ciclovia e de calçadas na rodovia Augusto Montenegro, no trecho que vai da rua da Marinha até a rodovia Transmangueirão. Também são feitos serviços de drenagem nesse mesmo perímetro. A Sesan explica que as chuvas intensas, comuns durante esta época, impediram que os serviços fossem executados em ritmo mais acelerado. A secretaria promete, logo após o período chuvoso, intensificar os trabalhos
Fonte: O Liberal de 07.-6.09
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